segunda-feira, 8 de julho de 2013

Tomás da Fonseca: Religião, república, educação


"O diabo em pé" odiava a fornicação entre Estado e Igreja. Pagou por isso.


“É tempo de lançar o gorro ao ar, de falar alto e dizer tudo”. Era uma vez um país chamado Portugal onde a relação entre Estado e Igreja era tão pornográfica, ou mais ainda, do que aquilo que por estes tempos assistimos em outras terras. E também Portugal teve o seu Pussy Riot: chamavam-lhe “o diabo em pé”. Tomás da Fonseca (Laceiras, Mortágua, 1877-1968) integrou uma linhagem de escritores que, ao longo da história da cultura portuguesa, conseguiu aliar a coragem física à coragem intelectual. Antes, durante e depois da I República, como deputado, polemista ou dissidente político, atrás das grades ou à frente delas, assumiu uma causa: a defesa de um estado laico, expurgado da influência da Igreja, quer sobre a vida pública, quer sobre a educação. Defendeu também o lugar das mulheres na sociedade em coisas tão simples como escolas mistas, que as professoras pudessem dar aulas a rapazes, ou em assuntos mais complicados como a pedofilia na Igreja – um tabu que tornou público em 1912, numa sessão da câmara dos deputados (p.83). Acima de tudo, alguém que acreditava no poder da crítica, da oposição, do contraditório como instrumento de dinâmicaa civilizacional (“Amigo ou inimigo?”, p. 135)
Nesta recolha de textos e discursos entre 1905 e 1962, Tomás da Fonseca exprime todo o seu entusiasmo pela libertação e a educação do povo. E, com não menos paixão, o ódio aos Jesuítas e à Igreja em geral, sem deixar de ser um crente e conhecedor do pensamento religioso. Para perceber o escritor há que conhecer primeiro o homem. “Religião, República, Educação” (ed. Antígona) arranca com um prefácio muito bem documentado do organizador do livro, Luís Filipe Torgal, que nos contextualiza com um período bastante complexo da vida política e social portuguesa, a que se segue um comovente texto autobiográfico, “Bíblia do povo. Evangelho dum seminarista”. Tomás da Fonseca foi um dos mais públicos detractores das visões de Fátima (tema que explorou nas suas cartas ao Cardeal Cerejeira, em “Na cova dos leões”, também editado pela Antígona), mas o seu inimigo principal era a ignorância, “mãe de todas as misérias e o número dos tolos é infinito, como afirma o Eclesiastes.”
A sua defesa dos iconoclastas que assaltavam igrejas para destruir as imagens de santos, em “A providência em cacos”, pode ser deplorável para a preservação do património, mas é uma jóia de paródia retórica: como destroçar as teses taumaturgas usando os mesmos argumentos de quem acredita em milagres: “E foi a estes cacos, a estas ripas e a estes farrapos que nós tantos anos rezámos e pedimos, que tantas vezes festejámos com sacrifício de tempo e dinheiro, que em tantas festas transportámos aos ombros, pedindo que nos levassem as maleitas e nos mandassem chuva! Foi diante desses monos, sem pés e sem cabeça, feitos a enxó ou a cinzel, que nossos pais se rojaram, prometendo o que tinham (…) para morrerem pobres e doentes, cheios de medo e de remorsos.”
O panfletário é menos interessante do que o polemista, e na série de diálogos do Manuel e do João (o professor e o lavrador), Tomás da Fonseca usa de pedagogia. Isso não o impede de escrever tiradas deliciosas. A propósito de um encontro com um padre durante a confissão: “Pois lá fui ajoelhar aos pés desse sovina. Mal eu tinha alinhado uma cruz sobre a testa e atamancado a confissão, logo ele veio com perguntas que nos levaram para o campo da política.” A propósito de um leilão de altares: “O Senhor do Passos, que tão venerado era pela alta-roda, e tão milagroso se mostrava, deixou-se arrematar por 2$50 réis”.
É uma prosa enxuta, colorida e viril, de uma modernidade que anuncia o modernismo. O estilo de Tomás da Fonseca é um património de clareza e desassombramento, que legou ao uso do português. O discurso que fez no senado em 1917, contra as congregações religiosas, pode ter sido um manifesto de “sectarismo impenitente, desprovido de bom senso”, como o acusou o deputado Carvalho Mourão, mas a pilhéria com que relata a concorrência entre publicações religiosas é um hino à plasticidade, ao encanto da língua: “O Mensageiro [do Coração de Jesus] viu, desde logo, a sua existência ameaçada, o seu passado glorioso desfeito por quem agora vinha excedê-lo com maior cópia de graças distribuídas, porque viu toda a sua existência em todos os lugares e a todas as horas, a grosso e a retalho, a pronto pagamento e até mesmo a crédito, coisa que jamais acontecera em casos desta natureza, porque a Igreja é cautelosa. E então viu-se o seguinte: em vez de três ou quarto milagres que costumavam ser distribuídos mensalmente aos leitores do mensageiro, começaram a aparecer dez, quinze, vinte e trinta. Esses milagres não vinham com indicações precisas e nomes claros, mas que diabo, eram milagres.”
Tomás da Fonseca era um iconoclasta, mas Raul Rego fez dele um belo retrato: “Alto, entroncado, as barbas abraâmicas ao vento, as abas do casaco soltas, havia quem fizesse figas como se ali fosse o diabo em pé; mas muitos o olhavam com a admiração enternecida de quem vê um homem entre os pigmeus, um homem livre numa sociedade que não é capaz de se desprender das ideias obedenciais que a manietam e amesquinham.” (da introdução)
Não sei se os “Sermões da Montanha”, ou “Como se fará a revolução” têm hoje a mesma urgência, mas pela forma como o povo é invocado, momentos há em que dir-se-ia tratar-se de uma escrita do sagrado, por alguém que acreditou no poder messiânico da palavra: “Querem-te deformado, querem-te submisso, para que tu não possas e não saibas erguer a enxada contra eles, sempre que vão bater à tua porta, hoje para levar o pão da tua mesa, amanhã o sossego do teu lar, depois a inocência de tuas filhas e por fim, e sempre, a única razão de ser da tua vida – a esperança de seres livre.
E assim tu, que julgavas ser alguém, não és afinal coisa alguma, visto que nem mesmo de ti és. (…) Sem saberes ler, sem teres direitos, sem teres terra, sem teres nada; tu, assim, nem Homem és.
E não sendo tu Homem, ó exilado, ó mártir, como hás-de ser Povo?
Porque o Homem, para o ser, há-de ser livre, e tu és o mais subjugado dos escravos. Porque o Povo, para o ser, há-de ser soberano, e tu és apenas a cabeça vazia de um torturado e de um vencido, o cordeiro faminto que agoniza entre um rebanho submisso e fustigado.” (em “Como se fará a revolução”)

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